Era uma viagem longa que duraria horas e horas de pura solidão solidária.
Solidão porque mesmo que estivesse rodeada de algumas pessoas era esse o estado de espírito que pairava sobre todo e qualquer lugar daquela vasta imensidão negra que desfilava em sua janela.
Solidária por ter um certo nível poético e até romântico que acalentava seu coração através daquela escuridão.
Seus olhos talvez não enxergassem um palmo a sua frente naquele ônibus gélido. Mas a paisagem lá fora se exibia em vários tons de cinza. E isso a encantava.
Seus pensamentos viajavam por tudo mas não se prendia a nada. Momento ou outro se pegava pensando em um rapaz. E era um dos sonhos que mais se repetiam diante de seus olhos abertos e atentos à noite, mas logo ele se cansava de dominar sua mente e tal cavalheiro ia descansar no conforto do coração dela. E seus olhos a direcionavam a outras dimensões. Outras realidades.
Então reparando naquela situação se certificou de que não havia ingerido nada que pudesse servir de alucinógeno.
Não. Apenas o de sempre. Um pouco de massa e líquidos não alcoólicos.
Seus olhos deslizavam por formas e sombras.
Cinza. Cinza-preto. Cinza-negro. Cinza-cinza.
Não havia luz além da lua.
Ah! A lua... tal ser misterioso de várias fases que insiste em seduzi-la independente da forma que se apresente.
Abaixou o banco. Aconchegou seu travesseiro e se deixou levar pela sua amante.
Via agora um mar negro coberto por espessas espumas e lá estava Ela. Acima da sua cabeça como uma auréola.
Deitou, mesmo que em uma posição um tanto quanto desconfortável, para observar. ESta dançava com graça divina e hora ou outra se escondia atrás das espessas espumas. Mas mantinha seu brilho. E quando aquele mar estava límpido, era mais elegante que qualquer pérola. Seu brilho atravessava toda a imensidão negra e tocava nos profundos olhos azuis de sua conquista.
E lá estavam ela e Ela se entre olhando.
De repente veio uma maré alta que permitiu que o céu fosse limpo e só delas, como se Posseidom percebesse que aquele momento não poderia ser interrompido por nada.
E o deus fez mais. Enfeitou o jantar romântico com velas flutuantes, que para as protagonistas estavam tão fora de seus distintos focos, que não eram nada mais que pontos de luz distantes. Não insignificantes, apenas relevantes. O deus sabia que havia feito algo de bom, e com discrição se escondeu atrás de alguma serra enquanto se deliciava alguns minutos a mais com aquela cena de amor.
A paixão fluiu e os minutos se passavam. Amantes não se desgrudavam. Ignoravam tempo e o espaço. Fixadas. Posseidom poderia jurar que a lua brilhava apenas de um lado e não em toda sua plenitude como antes o fazia. O foco dEla era ela. E a luz emanava de uma a outra de forma cilindrica e focada. Cortando a escuridão antes dominadora.
A noite passava e o movimento do ônibus embalava a garota apaixonada.Logo ela se deleitava em tamanho gozo. Os olhos acompanhavam a Lua, que agora para confortar sua amada, se encontrava quase que pairando ao fundo da paisagem. No limite do horizonte. A garota, que apoiava suas mãos entre a face e o travesseiro, piscava para tirar certo encomodo que pertubavam seus globos oculares. Pensou consigo:
"-Maldito Sandman!", mas antes que caísse em sono profundo foi capaz de ver a beleza que tinha tomado aquele lugar. A morada de sua amante agora era dominada por uma coloração avermelhada. O calor de sua paixão.
Se entregou e mergulhou em belos sonhos.
A Lua, não tão solitária quanto antes, mas agora um tanto quanto sozinha, se entregou tanto quanto e se deitou.
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